Moleskine

Bom dia blog. Reparo em mais um curioso que te quer ler.

A minha fotografia
Nome: Pepe Santiago
Localização: Porto, Portugal

Terça-feira, Setembro 19, 2006

A letra L

Estávamos bem calados, ela a olhar para os espelhos e eu a olhar directamente para a TV, e mais concretamente para as fufas. E estávamos bem, calados e a vermos as cenas de fufice sucederem-se.
Sem perceber como nem porquê ouvi-a dizer: Será que é mais fácil um heterossexual tornar-se homossexual ou o contrário?
Ora porra, estávamos tão bem apenas a apreciar as mulheres enroscadas. Cenas destas não se comentam, têm de ser aproveitadas, têm de ser devidamente analisadas e apreciadas. Não se pode interromper o pensamento “pulgas-destas-não-me-caem-no-lombo” com uma pergunta daquelas!
Puxo do último cigarro (pensava eu) e toca a pensar naquilo, sem proferir uma única palavra…
Pois bem – disse eu já no lugar do morto – eu acho que é mais fácil um ser heterossexual mudar para homossexual. É mais fácil apenas pela frequência de acontecimentos, pura estatística. Ora repara, existe um maior número de heterossexuais, pelo menos penso eu, os homossexuais são a minoria. Então a base de evolução encontra-se no grande grupo que deu origem ao pequeno. É mais frequente encontrares um indivíduo (homem ou mulher) que seja heterossexual mas isso não quer dizer que o grupo de homossexuais derive do primeiro, pois aí estaria de acordo com o catolicismo cego e defenderia com unhas e dentes que Adão e Eva foram os primeiros espécimes da raça humana. Nesse caso de cegueira seria cúmplice da tua afirmação “mas o normal é a heterossexualidade, porque o normal é um homem estar com uma mulher e vice-versa.” Mas como é que algo é considerado normal no comportamento humano?! Se o normal é a heterossexualidade então qualquer outra tendência é considerada anormal, qualquer indivíduo é considerado um anormal…porquê? Pela racionalidade? Pela consciência? Então e os cavalos-marinhos, as pulgas e as minhocas? Então e aquela espécie de macacos que até sonham com um buraquinho e mal acordam aviam tudo sem olhar a sexos?
No meio disto tudo surgiu outra pergunta bem mais interessante e, na minha opinião, bem mais complicada (sim porque a pergunta anterior era só para 25 euros) que questiona a epistemologia da homossexualidade enquanto grupo derivado da heterossexualidade ou grupo próprio crescente.
Enfim…merdas.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Guardanapos


A Sandra não sabe fazer exercícios de flexibilidade.
Com toda a minha boa-vontade e perícia planto-me a seu lado servindo de manequim rasca.
Passados 12 minutos, até então ingénuos, exemplifico a posição de alongamento lombar (figura de cima), com a Sandra a meu lado seguindo religiosamente as instruções do manequim rasca, e saio-me com o seguinte feedback:

- Muito bem Sandra, agora puxa os peitos contra o…



Guardanapos

Quero sair do parque de estacionamento da faculdade mas não tenho a chave que faz levantar a cancela. A menina telefonista, que também controla brilhantemente a entrada e saída de “clientes”, parece que já adivinha a minha intenção quando me aproximo:

- Boa tarde – digo eu – pode levantar a carcela se faz favor?

Terça-feira, Abril 18, 2006

Destino? Não obrigado...

Diz-se que o Homem perante uma situação de extremo stress emocional transforma-se em algo superior à média viva, os olhos raiam com mais força, as mãos cerram-se até sangrarem e o cérebro é estimulado com toda a glucose que possuímos. E às vezes não é suficiente. Esta é a história da minha morte. Seja lá quem for que toma conta de nós não me deu a mínima hipótese, pensou em tudo, mesmo quando me transformei nesse ser sobrealimentado. Parabéns, sejas lá quem fores.
Lembro-me do tronco a soltar-se do camião à minha frente, revoltei-me tanto que tentei pará-lo com as próprias mãos…
Acordei esta manhã com a mão dela a aquecer demasiadamente a minha coxa direita, estava incomodado e delicadamente conduzi-a ao local de maior fluxo sanguíneo matinal. Gostou. Em estado de semi-vigília sussurrou-me os seus sonhos, contou-me os seus prazeres, partilhou comigo promessas de amor.
O destino é aquele abraço que queremos repetir, mas pensando melhor:
Há melhor maneira de acordar?

Segunda-feira, Março 27, 2006

Pepe unleashed - Revolución vol.4

Sábado, Março 04, 2006

Estrada com açucar

Viajo de carro e as placas sucedem-se à minha frente. Anseio por aquela especial, aquela que me fará escolher o caminho de hoje. Assim que aparece questiono a sua veracidade e admito alucinações; será que leio o que está escrito ou apenas vejo o que desejo? De qualquer modo trata-se de um código. Um código de letras que formam frases que consigo ler e compreender; assim como os algarismos que formam números também o são; assim como o tempo, cronometrado em minutos, também o é; assim como os dias que compõem as semanas e os meses que preenchem os anos também o são. O tempo que vemos passar com toda a atenção no relógio e o tempo que se prolonga no calendário, a escrita e a numeração são códigos prisionais que nos moldam por completo e nos prendem à cadeira eléctrica da sociedade inconsciente.
É a prisão perfeita!
Ninguém nos “aconselha” a descansar durante o fim-de-semana e a trabalhar durante a semana, apenas sabemos e aceitamos que assim o é. É a forma mais inteligente que conheço de direccionar a raça humana sem algemas, directrizes directas, regras impostas por patrões, jaulas, recintos escuros e sombrios, ambientes laboratoriais ou guardas prisionais.
Se acordamos tarde para o compromisso da manhã culpamos o condutor do carro da frente, se nos esquecemos do aniversário de alguém culpamos quem não nos fez recordar.
Se li a placa correctamente ou apenas li o que desejei não interessa, porque não fui eu que olhei para ela, foram os códigos que me conduziram.

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

É madrugada

Sou um pedaço de merda disforme a escorrer pela parede, com o objectivo único, ou esperança, que o chão onde vou cair me molde em algo melhor. No rasto castanho deixo moscas e larvas insaciáveis que conheci, elas pisam e comem e vomitam-me, alimentam-se em mim, no que deixo pelo caminho condenado. Anseio que me pisem, que me levem pela estrada, para os tapetes de casa que dizem “bem-vindo”, vários de mim. O meu cérebro é transportado na língua do cão vadio, humidificando os meus sentidos sem controlo. O meu corpo ficou na esquina, endurecido e mutilado pelos pés que calcam. Em breve eclodirão parasitas e lagartas e farei parte de um sistema digestivo frio. Mas não morri. Faço parte de uma mutação diferente, um casulo arrepiante que me acolheu com o mesmo amor da borboleta mais pura. Apesar de voar constantemente não sou borboleta. Sinto a curiosidade infantil do brinquedo, de me ver ao espelho e berrar “já não te reconheço!”. É isso! Já não me reconheço e vou coçar-me como os ursos e espetar cotovelos nas costas, como gosto, porque gosto.
Já não tenho medo.

Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

Pepe unleashed - Revolución vol.3


“Sr. Santiago, – diz Hugarín já recomposto – tenho dois recados para si: o jornal da semana já chegou e a Madame Zázá esteve lá em baixo, à porta, e pediu-me para lhe perguntar quando lhe faz uma visita. Você é um homem com sorte, Sr. Santiago.”
“Tudo bem companheiro.”
“Desta vez vou consigo, Sr. Santiago?”
“Não tenhas pressa puto, ainda tens muitas coisas a fazer e a descobrir antes de me acompanhares.”
Hugarín baixou a cabeça e fechou a porta da suite atrás de si. “Então o jornal já chegou,” pensei enquanto pisava novamente a rua molhada.
Por outro lado, o segundo recado já trazia outro tipo de dúvidas, “o que quererá a Madame Zázá?”
Conheci-a há mais ou menos 12 anos. Nessa altura era um moço-de-recados, embora fosse o puto com mais dinheiro da rua onde morava, ou melhor, eu sozinho, graças aos recados, tinha mais dinheiro do que qualquer família do bairro. À imagem do Hugarín hoje-em-dia.

Tinham-me dito para ir à Confeitaria Zázá buscar uma encomenda e, só por isso, iria embolsar mais uma pipinha de massa. Era feliz mergulhado no capitalismo e no suborno. A Confeitaria Zázá estava aberta 24 horas por dia e quando lá cheguei, por volta das 17:30h, fiquei deslumbrado com a imponência da sala. Espelhos enormes cobriam uma das paredes laterais, as mesas de madeira com tampos de mármores gasto, todo o chão coberto com quadrados grandes, também de mármore, alternando as cores preto e branco, as pessoas, maioritariamente homens, estavam com um enorme à-vontade a fumar, a conversar, a ler, a escrever ou até desenhar e pintar. Estranhei o facto de todos os empregados serem mulheres, mas até gostei. Notava-se a presença de uma líder, uma figura à qual todas as outras prestavam o maior respeito e subordinação com uma serenidade e tranquilidade notáveis.
Envergonhado, sentei-me.
Sem perceber a razão captei a atenção de todas as empregadas que prontamente me rodearam a acariciar o cabelo e a fazer perguntas estranhas. Na periferia da circunferência formada por elas ouviu-se uma voz doce e decidida, “meninas, ponham-se a mexer, eu e o Pepe temos assuntos a tratar.”
“Temos?”, pensei eu.
“Antes de mais – continuou aquela senhora com um vestido à semelhança da Cármen Miranda – queres tomar alguma coisa?”
“Sim, pode ser leite chocolatado.”
“Ouviram minhas filhas? Leite chocolatado para o Pepe,” disse a senhora de 30-40 anos, para já Cármen Miranda.
“Menino Pepe, quer o leite no pacote ou deito num copo?”, perguntou uma das “filhas” da Cármen Miranda.
“Pode ser no pacote,” disse eu inocentemente.
“Muito bem, então vá descendo as calças!”
“Não as ouças Pepe – interrompeu a Cármen Miranda, lindíssima e ancas largas – um dia, quando as conheceres melhor – pisca-me o olho – vais compreendê-las.
Sabes Pepe – continuou enquanto me segurava a mão – tudo o que vês aqui dentro é meu. Tudo isto é sinónimo de suor, lágrimas e muito sangue e nunca, enquanto for viva, deixarei que me tirem ou desrespeitem a minha casa. Já fui fornicada de todas as maneiras que imaginas e muitas mais, já estive com brancos, índios, pretos, chineses, novos, velhos, mulheres e animais. Enfim, não há nada que desconheça no mundo do sexo. Todos me marcaram de algum modo e todos desapareceram com maior rapidez do que quando entraram. Porém, - agora a mão apertava-me a coxa – nunca deixei que me beijassem, construí tudo isto baseado no prazer que consigo oferecer, é isso que eu faço e que gosto de fazer.
Estás a perceber o que te quero dizer?
“Claro que sim - pensei. Já não és virgem em nenhum dos buracos que o Diabo te deu.” Descarado e ordinário desde pequeno.
“Não”, disse eu.
“Quero dizer-te, Pepe, que fui sempre fiel às minhas convicções e todo este pequeno império foi elevado sem a preocupação do amor, sem ter por base o sinal de afecto por excelência, o beijo.
Se conseguires isso na tua vida profissional, que agora inicias, serás bem sucedido. Caso contrário, estás fodido!”

Madame Zázá…a puta moralista. Adora-me como se fosse filho dela, se calhar pelas vezes que a safei de colocar mais pivots na boca.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Pepe unleashed - Revolución vol.2


Os telhados de edifícios são os meus locais favoritos para fumar. Não sei em que telhado estou mas sinto-me muito confortável, está um dia de sol e o fumo escorre pela minha boca de forma perfeita. Procuro o local por onde entrei, uma porta, umas escadas mas não encontro. Percorro todo o telhado, de uma ponta à outra, mas não vejo nenhum acesso. Como é que vim aqui parar? Sinto a brisa fresca típica de qualquer floresta e, ao espreitar para baixo, reparo que as árvores em redor deste prédio cinzento e escanado estão completamente queimadas e são aos milhares, aliás aos milhões. É uma floresta imensa e densa de morte. São milhões de fósforos queimados, só restam as carcaças podres e carbonizadas.
“Calma amigo Santiago”, digo para mim mesmo. “Tem de haver uma explicação para estares no telhado de um prédio de…mais de 50 andares!”
A brisa passou a vento começando a incomodar e quase a empurrar-me, sinto os ouvidos a estalar e só me apetece correr e fugir desta situação, mas para onde?
O vento aumenta de intensidade e, agora sim, empurra-me com força, tenho a necessidade de inclinar o corpo para a frente quase a 45º, isto é ridículo, mas se a intenção disto é assustar-me então, seja quem for, está a fazer um bom trabalho. Tenho as pernas a tremer de tanto tentar correr, não consigo mexer-me por minha vontade e estou, cada vez mais, a ceder ao ciclone, a escorregar para trás, estou a ser arrastado e já nada em mim responde a não ser o pânico que não me sai da cabeça. Todo o telhado é delimitado por um beiral de 50cm que, em breve, se tornará num pequeno degrau caso este tufão continue, já não consigo respirar nem abrir os olhos, há papeis e sacos plásticos pelo ar, “já só faltam as vacas”, penso eu no momento de desespero. Os meus pés, que já não são meus, vão de encontro ao beiral e o meu corpo endireita-se criando maior superfície de contacto a esta força das trevas. Um último suspiro de um homem resignado “O que queres? O que queres de mim? Porque bufas com tanta força? Não mudo! Isto é tudo o que tens para dar?”
O peso do meu corpo deve ser inferior a um lápis e sou cuspido do meu sítio favorito para fumar, a última coisa em que penso é “O cigarro já se apagou há muito tempo.”
A sensação na barriga é intensa e a vida não passa toda pelos olhos em 6 segundos, é tudo mentira…
Tenho a imagem da minha ex-mulher-de-sexo-intenso, a chamar-me por “Sr. Santiago, Sr. Santiago”, na cabeça e apetece-me matá-la!
Acordo num sobressalto levantando o tronco da cama ensopada em suor e esticando o braço direito para a frente, não sei se disparei.
Disparei!
O croissant está a rebolar pelo chão à minha frente, a chávena de café com leite partiu-se no momento em que caiu, a manteiga e a compota misturam-se com o café com leite e a bandeja ainda rodopia naquele som que parece que nunca mais acaba. A mão do Hugarín, embora ainda a segurar na bandeja imaginária, treme como varas verdes. Os olhos estão esbugalhados e sem cor definida, a pupila é minúscula.
Baixo o fusco e passo a mão pela cara, “Estás bem Hugarín?”
“S…Sim, Sr. Santiago…”
Levanto-me devagar com a pele de nascença, passo pelo Hugarín/estátua e entro na casa de banho.
“Não te preocupes puto. O furinho na parede atrás de ti quer dizer que não te acertei, não sei como mas não te acertei. Antes de saíres, quando te conseguires mexer, tira um cigarro do maço e fuma descansado”, quem disse que não tenho sentimentos?
“S…Sim, Sr. Santiago…”

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

Antes que perca o vício

Escrevo em branco no Moleskine, só quero passar tempo, enquanto os adolescentes entram pela confeitaria adentro após o último tempo da escola.
“Colega, arranjas um cigarro?”, diz um dos sabidolas. Já passou o tempo em que possivelmente seríamos colegas. Não respondi, mas ele insistiu.
“Ouve lá, estou a falar para ti! Não ouves?”
Empurro a cadeira à minha frente.
“Senta-te. Há duas maneiras de ganhares um cigarro:
Dás-me algo em troca e a única coisa que quero de ti é que me pagues o lanche e, no final, vais rir-te para mim e para os teus amigos; ou então dou-te já o cigarro mas duvido que o consigas fumar à chuva e com a boca toda rebentada.”
A gargalhada foi enorme.

Peço um café

With your feet on the air
And you head on the ground

Peço um café e um licor beirão, deito o açúcar no licor;
Peço um café e um cinzeiro, deito o açúcar no cinzeiro;
Peço um café, ponho a chávena no cinzeiro.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2005

Pepe unleashed - Revolución vol.1


De regresso do hospital decido voltar ao quarto azarado do meu amigo Plavek. A viagem demora cerca de 15 minutos de táxi e quando me aproximo da morada desejada já lá se encontrava um automóvel bastante familiar, o do Inspector Belvedere. É um tipo magro e doente e bastante alto, o que o torna parecido com o esqueleto criado por Tim Burton. Usa sempre, e sem excepção, uma gabardine beije para ficar parecido com o Clark Gable, diz ele. Quanto a mim apenas a usa para esconder os cornos de dezenas de traições da sua mulher, a Consuelo Aguillar, mais conhecida e rodada do que a própria Madame Zázá, mas isso é outra história. Por consideração à minha “empresa” tenho de verificar se tudo naquele quarto nos descompromete, o restante pode ficar para o cara-de-cu do Belvedere.
“Boa tarde rapazes”, atirei para o ar.
“Isto é obra tua Santiago?”, diz o Belvedere.
“Antes de te cumprimentar já me apetece mandar-te à merda” - boa maneira de insultar a autoridade sem o dizer descaradamente - “gabardine nova?”
“Não acabo a minha carreira sem te por as mãos em cima, sabes disso não sabes?”
“Pelo teu aspecto já não faltará muito até que entregues o crachá e compres uma trela para a cadela que tens em casa”. “O morador deste quarto era meu amigo, acabei de o entregar no hospital, se quiseres telefona-lhes e confirma”, e com isto a conversa acabou entre risos controlados dos polícias e a vontade do Belvedere se enfiar num poço sem fundo.
O quarto estava “limpo”, a poça de sangue chegava agora à divisão maior do quarto e manchava os tacos para sempre.
Desci para a rua e continuei o meu percurso sem destino, ou melhor, sempre que inicio caminhadas destas vou ter à praça da estátua do Simón Bolívar, ao menos ele ouve-me, percebe-me e nunca me julga pelo que faço de certo ou de errado, de justo ou de injusto, de Bem ou de Mal. O cabrão também fez das dele enquanto por cá andava.
Pensei que fosse sozinho pelas ruas mas calco-me em cada passo, o meu reflexo nas poças de água é tão distorcido como o meu raciocínio neste momento. Agora calco-me de propósito. Quero descobrir até que ponto aguento ver a minha imagem cortada em ondas e salpicos.
Há 20 anos descobri, por acaso, que sou muito bom a magoar, a fazer sofrer, a obrigar a falar, a torturar, e sou péssimo a fazer o contrário. Não sou menino-bonito, o menino-do-coro, o mais bem comportado da turma, o prémio fair-play no torneio de futebol, o justo, o correcto, o leal, “NÃO! SOU MAU COMO O CARALHO!!!”
“Peço perdão, minha senhora! Ia distraído e saiu-me isto da boca. Assustei-a?” Desgraçada da velha, quase que ficava com a placa nas mãos.
- Passa uma semana -

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Embriaguez

Claro que sim, compreendes-me tão bem.
Tens a face de seda e olhos meigos. O teu cabelo é perfeito, comprido, muito suave e ligeiramente ondulado, à luz do sol torna-se uma fixação, vou tocar-lhe outra vez. Passo o dedo indicador, quase sem tocar, desde a tua nuca até ao final da coluna vertebral, começas a encarquilhar os dedos dos pés e não sabes se são arrepios ou o início de algo. Tenho a palma da mão com uma curvatura perfeita de encaixe na tua barriga, sou um molde. Agora toco-te com mais força e uso as duas mãos, simétricas, fortes, sinto as tuas costelas a amolecer e levanto-te os braços, pelo caminho afastas as cortinas.
Sente a nossa tesão a crescer ao ritmo da inveja deles. Olha para eles e arreganha os dentes, mostra-lhes que não te controlas. Fica encarnada de vergonha e azul de prazer. Diz-me agora o que sentes, diz-me que é impossível manter a boca fechada agora és totalmente minha. Boca seca de tanto arfar e no entanto sinto-te a escorrer por mim e já não vês, os sentidos cegaram-te e já não explicas o que sentes, já não gemes agora berras. O que sentes é a tua mortalidade e está prestes a conduzir-te à loucura. Estás no fio da navalha da sensação humana, enlouqueces!
Para mim já chega, veste-te e sai AGORA!

Quarta-feira, Dezembro 07, 2005

(F)Ode a mim


Já não existem originais porque tudo o que foi dito por alguém já foi ouvido ou lido por esse alguém. Tomo por ponto de partida deste raciocínio a arte. A arte é arte? É arte porquê? O que é arte? De qualquer modo vou utilizar a palavra arte para referir a expressão humana em todo o seu esplendor, mesmo os actos bélicos do sr bush, porque não? A arte é portanto qualquer representação de sentimento desde que se trate de um original, isto porque, na minha opinião, é cada vez mais difícil criar (no sentido mais inocente e ingénuo possível) visto que tudo o que fazemos tem influências directas ou indirectas, tornando a originalidade quase inalcançável.
A ideia de chamar arte ao ofício de manufacturar retretes é verdadeira. Comummente temos, na nossa ideia pequena, a percepção de arte como algo desenhado, pintado ou esculpido, porém aposto que qualquer expressionista dessas áreas era incapaz de, com as próprias mãos, construir uma retrete de encaixe perfeito no cagueiro médio humano. Logo, não é “mais arte” a Mona Lisa do que o meu local de actualização diária de revistas cor-de-rosa.
A arte tem de ser avaliada por alguém, por alguém entendido na matéria. Mas como se pode avaliar algo se não se conhece a pessoa que o fez? Como se pode ser pretensioso ao ponto de comentar e avaliar uma obra feita por alguém? Não se entende como isso se torna tão simples como a simples atribuição de uma nota, sem se conhecer as mínimas circunstâncias da realização dessa obra e, muito menos, da intenção do autor assim como da sua disposição física e/ou psicológica. Não serão factores demasiado importantes a ter em causa na avaliação de algo? Os factores que referi não serão, se calhar, os factores mais importantes a descobrir e a reflectir numa obra, em detrimento da técnica ou instrumentos que a pessoa utiliza? Todas as avaliações estão assentes em pontos de vista de outras pessoas.
Por diversas vezes fui confrontado com situações de análises de poemas durante os meus anos de escola secundária. Se eu comentasse ou analisasse os poemas da forma que eu considero a mais correcta, ainda hoje estaria a frequentar e a discutir aulas de Português B. Isto é muito fácil de entender porque a verdade é que ninguém, à excepção do próprio autor, pode interpretar aqueles textos tão complexos quanto ele próprio. Deste modo, decidi responder às questões, e interpretações que me eram colocadas, de acordo com as expectativas da professora, tornando as aulas, por um lado, muito previsíveis e, por outro, estupidamente padronizadas e estereotipadas.
Como tal, a avaliação não fará sentido senão para as pessoas que avaliam e, deste modo, qualquer obra perde o valor que lhe é atribuído (pelas pessoas avaliadoras) mas ganha, com maior mérito e justiça, tantas avaliações quantas pessoas virem a obra. Então, se cada pessoa está limitada às suas vivências e experiências, a arte absorve as expressões humanas em todo o seu esplendor.
Concluindo, não existe arte da forma que a conhecemos. Essa não existe. Isto é o questionamento em nosso redor que muitas vezes passa de mansinho. São as verdades absolutas inquestionáveis. Espera. Existe verdade absoluta?
Eu tenho o direito de refutar e contrariar tudo o que disse ontem. Amanhã poderei, se quiser, fundamentar uma opinião contrária ao que disse hoje. Tudo isto porque consigo descentralizar-me do objecto e, a partir daí, deixa de existir a verdade absoluta, apenas parcelas de verdades relativas.

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Voto secreto

Tudo aponta para a eleição do Cavaco Silva.
Na primeira oportunidade dissolve a Assembleia, reformulando-a com a direita em maioria absoluta. O reaparecimento, das cinzas, do Paulo Portas negando o conhecimento da utilização das bases aéreas dos Açores, Porto e Lisboa como ponto de passagem de aviões e aeronaves da CIA, é um prenúncio disso mesmo. O próprio, entre 2002 e 2004, era o ministro da defesa. É de conhecimento público que isso aconteceu e ele desconhece? Custa-nos sustentar camelos desta espécie.
Noutro ponto de vista, a mudança de um país passa pela tomada de consciência de que cabe ao povo promover essas alterações reivindicando as mudanças evolutivas. Não é a eleição de um único homem, seja A, B ou C, que modificará as (in)diferenças sociais, económicas e educativas existentes. Esse senhor eleito não vai trabalhar nem pagar impostos por nós.
É imperativo que aconteça uma revolução educacional. Chega de classes e corpos docentes ultrapassados, transformados em marionetas capitalistas. Deêm-lhes a reforma! É um favor nacional que fazem à educação. Apoiem e acreditem na geração docente recente, com espírito empreendedor e trabalhador e com vontade de fazer a diferença em cada escola, centro educativo, em cada freguesia, em cada Câmara Municipal.
Os homens e mulheres de amanhã, presentes nas instituições acima referidas, não merecem uma influência baseada em conceitos dos nossos avós. Deêm-lhes uma hipótese de se tornarem pessoas compreendidas por uma classe etária mais recente, mais capaz, mais activa, mais viva.
(Carta ao cuidado do povo eleitor)

Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Xadrês

Descobri uma maneira excepcional de me conhecer um pouco melhor. Torna-se mesmo impossível conseguir isso sem ter ajuda externa. A introspecção simples esbarra-se em mim mesmo e a consciencialização acontece pela repetição de ocorrências, mesmo que tenha sido negada inúmeras vezes.
No meu caso as mulheres conhecem-me melhor do que ninguém, eu incluído, por isso foi a elas que recorri. Trato(ei) todas elas pessimamente, ao menos sou coerente. Aturei olhos misericordiosos, engoli sapos moribundos e ouvi moralidades e sermões infindavelmente azedos. São, ou foram, apenas reacções à mesma pessoa perante sentimentos diversos, mas todos com a mesma origem, eu. Crio mecanismos fáceis de desacompanhamento, levando-me a pensar que um negócio de desacompanhamento, para mulheres masoquistas, tivesse um enorme sucesso para mim. Portanto, eu desacompanho. Formo puzzles sem encaixe e ainda por cima não idealizo as suas soluções, tornando impossível o vislumbre da imagem completa mesmo aos olhos do supremo estratega Kasparov.
Um bocadinho de mim é assim, dito por pessoas que não se conhecem entre si.
Tens de mudar; Não podes continuar assim; Desse modo ninguém te atura. São expressões comuns, são desabafos esgotados autenticamente cuspidos. Sinto-o em cada penteado que faço ou roupa que uso, é um portão enferrujado que penduro à minha frente com o número 999. As marradas fortes de afecto inverteram os algarismos.
Autorizo toda a gente a abanar o portão mas quem bate à porta do diabo arrisca-se a que ele o abra.
Isto é para ti, para te dizer que plantei uma árvore pela segunda vez no meu jardim, no mesmíssimo local da anterior.
Não tenho culpa, estrumas os meus sonhos como ninguém.

Sábado, Novembro 05, 2005

Hoje

Gosto dos pêlos entre as almofadinhas das patas e como ela percebe que gosto dela no espelho da sinceridade animal
Gosta de afastar o robe para eu perceber que gosta de mim não só na hora do orgasmo fácil entre passeios lambo-a
Fico acordado prisioneiro eterno dos cavaleiros pintados de rosmaninho com constantes toques de consciência bêbeda
Horas a fio em impossíveis mergulhos de prazer com os lençóis a estragar odores utópicos quando as mãos apalpam
Gosto de sentinelas que vagueiam em ciclo-ergómetros fiéis ao juramento imposto e escrito por alguém que não sente
Gosta de hipnotismos injustos com os quais manipula palavras forçadas; gosta de olhar para mim gosta de sentir-me enfim

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Pepe unleashed - Quarto 13


Cada vez que é preciso "compôr" alguma situação chamam o Pepe. É preciso convencer o sujeito x a pagar o que nos deve, chama o Pepe; é preciso "ensinar" o sujeito y a respeitar a casa, chama o Pepe; é preciso "limpar" aquela sujeira, chama o Pepe; daqui a nada estou a recibos verdes e funcionário da Câmara Municipal. O Pepe resolve tudo, dizem eles.
Quarto 13, é aqui.
Existem várias maneiras de entrar num quarto em silêncio. Com pinos na fechadura, com cartões de crédito, com alfinetes, etc. Mas neste caso vai ser mesmo ao biqueiro.
A madeira estala por todo o lado, parece que a qualquer momento o chão vai desabar. Por falar em chão, se calhar cheguei tarde demais. Piso pedaços de cal pintada de branco e pó. Um candeeiro está em bocados espalhado à minha frente com os fios rebentados e uma corda. Ao ver a corda pensei no Clint Eastwood do filme "O Bom, o Mau e o Vilão", pelo menos o nó é semelhante. Onde estaria o desgraçado? A janela está aberta e as cortinas avançam pelo quarto sujo. Por todo o lado há crucifixos e figuras de santos. Pelas marcas nas paredes adivinho muito mais quadros e pinturas noutros tempos, hoje restam só os quadrados mais claros. Está escuro, reparo nesse facto por se notar perfeitamente o fio de fumo branco que sai do cinzeiro em cima da cama. Ele ainda está cá!
Um som forte faz-me voltar para a porta entreaberta à minha esquerda. Num reflexo já automático saco do fusco e empurro a porta com o cano de 9 mm.
-Ó desgraçado, como tu te puseste!
Fazia exactamente um ano que aquele desgraçado entornou café por cima do fato de cerimónia do meu patrão. Foi em L'viv na Ucrânia perto da fronteira com a Polónia. Foi nesse ano que me encontrei pela primeira vez com o meu patrão em pessoa, em 20 anos de trabalho, ou melhor, de trabalhos. E ainda por cima este tinha corrido mal, eu estava cortado numa perna e ele fora baleado na nádega esquerda, portanto o sentido de humor, que nele é quase nulo, estava péssimo. Mas isto é outra história.
O único desgraçado que parou na estrada secundária coberta de neve e nos deu boleia conduzia uma camioneta de transporte de porcos para o matadouro. Como havia um só lugar ao lado do condutor adivinhem quem foi fazer companhia aos suínos...Falamos todos em ucraniano.
-Não quero perguntas, pró hospital rápido! - disse o meu patrão.
-Já vi que estão ambos em mau estado mas é melhor sentar-se direito porque a estrada é acidentada. - retorquiu o condutor.
-Você não vê que não me posso sentar, ó imbecil de merda?! Rápido pró hospital!
-Ahhh já percebi...correu-vos mal a noite? Mas por estas bandas as pessoas ainda são muito cépticas em relação a essas porcarias, se calhar é melhor que isto fique só entre nós.
Este condutor, de nome Plavek, tinha acabado de ser bafejado pela Santa da Sorte Ucraniana e passou pelos minutos mais sortudos da sua vida. Não estaria vivo se o meu patrão não tivesse desmaiado de dores.
Chegamos ao Hospital Central de L'viv e descarreguei o meu patrão directamente no bloco operatório. O Plavek foi buscar café para nós. Os médicos demoraram a aparecer na sala e o infeliz condutor com toda a sua boa vontade quis ferecer café ao meu patrão estremunhado. O meu patrão estava deitado de cu para o ar e o Plavek quando tentou acordá-lo foi surpreendido por um berro de pânico de todo o tamanho e o café ganhou vida própria. O meu patrão ficou pálido, não sei se agradecido por uma bebida quente se entretido a pensar na tortura mais apropriada para aquele camelo de três bossas.
Enganei-me redondamente.
Já no Aeroporto Internacional de Kiev o meu patrão decidiu oferecer-lhe emprego na Colômbia.
-Vens para Bogotá e continuas a tratar de porcos mortos, ou prestes a morrer.
Claro que os porcos seriam outros mas o desgraçado do Plavek nem pestanejou e aceitou quase de joelhos.
-Pepe, vai comprar um bilhete para o Plavek.
Pepe, sempre o Pepe, o Pepe paga.
-Plavek, eu vou comprar o bilhete mas na primeira oportunidade chegas-te à frente que não me apetece andar a sustentar ucranianos que lidam com porcos. - esclareci.
Caí que nem um patinho e ficou a dever-me o guito. Quando contei a sede de vingança ao meu patrão, já em Bogotá, ele disse-me que o Plavek deve estar com tanta vergonha que provavelmente nem conseguia olhar-me nos olhos. Deste modo, por x contos tinha-me livrado de um aldrabão de merda e insistiu que até foi um preço barato a pagar para fazer desaparecer um imbecil daquela espécie.
Mas eu não sou o meu patrão...e decidi cobrar.
-Plavek, meu velho, que foste tu fazer? Olha para a pocilga que aqui fizeste...Consegues ouvir-me?
No meio de tanto sangue era impossivel dizer ao certo onde ele estava ferido, mas depois ocorreu-me: este desgraçado deve ter cortado os pulsos, já que a forca não resultou.
Estava em estado de choque e pálido como um urso polar. De certo não ouvia uma única palavra do que lhe era dito. Deduzi que já não era necessário estar de pistola armada e tentei levantá-lo.
-Anda lá ucraniano guardador de porcos, já não gostas dos milhares que ganhas a tomar contas destes porcos colombianos? Logo vi que isto não era vida para ti, mas tu deves ter pensado que ias fugir do frio e da neve e do gelo e dos porcos e afinal encontraste um local quente para te matares, desgraçado.
No momento que o levantei caiu uma carta. Acomodei
novamente o arroz de cabidela no chão e comecei a ler a carta(em ucraniano):
Caro Plavek:
Faltam-me as palavras neste momento de angústia.
As portas estão abertas caso decidas regressar e recomeçar. Ver-te tão entusiasmado com o início de uma nova vida faz com que o meu coração se parta em mil pedaços pois o que tenho para te dizer não é facilmente assimilável.
Todos os teus porcos foram mortos e a tua querida esposa Natacha deu à luz uma linda menina. Tentei que ela vomitasse o nome do sujeito mas ela não sabia. Apenas me disse que estava de fato de cerimónia e fumava charutos cubanos, cohiba nº5.
Desculpa Plavek.
Abri uma garrafa de Jack Daniel's e comecei a beber shots, enquanto ele se esvaía em sangue. Fumei um maço de cigarros a pensar na situação enquanto o Plavek percorria as cores do arco-íris.
Agora que está azul vou levá-lo ao hospital.
Até sempre ucraniano guardador de porcos.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

Your own personal jesus



-Ora então como é que vai ser?
-Não faço ideia, como o anterior penso eu.
Calou-se por segundos e franziu as sobrancelhas grisalhas, farfalhudas e estranhamente afiadas para fora. Decidiu assustar-me.
-Queres um país libertador, este corte vai libertar-te, tem este lado punk, que é rebelde e simultaneamente um pouco europeu.
Levantou a voz. Tinha toda a minha atenção. Estremeci e pensei "é bom que isto tenha alguma lógica senão começo a procurar uma câmera escondida".
-Liberta-te rapaz! Vais sair da rua onde sempre viveste e, de fora, podes contemplá-la e tomar decisões. Muda.
Numa coincidência, pelo menos pensei eu, os meus olhos em pânico alimentaram-se na inscrição do seu anel rubi, 666.

Domingo, Outubro 23, 2005

Deus dá nozes


Estou farto. Estou farto de telemóveis, de chamadas, de mensagens, de baterias e cartões. Estou farto da prisão dos pequenos aparelhos que limitam a iniciativa, principalmente estou farto de atender uma chamada e passado 3 segundos ouvir o sinal de bateria fraca. “tou?, tou?, foda-se…”. O André, agente da TMN, visitou-nos lá em casa. Escolhemos telefones e tarifários. Como ia transitar de empresa de telecomunicações tinha direito a 50% de desconto num tarifário de 100 minutos por mês, em vez de 32€ pagaria apenas 16€ por esse tempo de chamadas.
No entanto insistimos na prioridade de manter o número de telefone antigo. O André disse-nos que todo o processo demoraria um pouco, por causa da portabilidade de números, e que dentro de 3 semanas estaria tudo prontinho. Ousei pensar “3 semanas? Isso é quase um mês. Enfim, eu espero”.
Passados 2 meses e após várias tentativas de telefonemas para tentar perceber a razão de tal demora, passamos a comunicar com uma tal de Rute Leite. A Rute reviu o processo e descobriu que faltava uma assinatura e uma fotocópia de um documento para o processo seguir em frente.
Passado outro mês a paciência começa a esgotar-se à velocidade de um espirro. Após vários telefonemas da nossa parte, e promessas de retorno de chamada em vão, chegam os telefones pela mão da Rute Leite. Orgulhosa por um trabalho bem feito entrega os ovos de equipamento com um ar invejável de competência. Reparamos que os telefones não tinham cartões. Passados 2 dias chegam os cartões pela mão da responsável e cumpridora Rute Leite. Os cartões tinham números da TMN, ao contrário do que tínhamos combinado: manter os números da Optimus. Depois de um telefonema, mais um, a Rute informou-nos que a transferência de números demoraria 4 dias e que podíamos utilizar estes números entretanto, visto já estarem com o novo tarifário, os tais 100 minutos por mês.
Passou mais um mês, e pelas minhas contas já vai em 4 meses uma promessa de 3 semanas.
Motivado e ao mesmo tempo enganado pela expectativa do novo telefone fui gastando alguns minutos. Uns telefonemas mais tarde, tinha a duração total de chamadas nos 13 minutos e 11 segundos, porém tinham descontado no saldo 15 minutos. Dos iniciais 100 minutos apresentava um saldo de 85 minutos.
Pois bem, teria de quantificar esta diferença e depois de algumas contas reparo que a TMN, na sua boa vontade, faz um acréscimo de 30,8% sobre as chamadas. Isto quer dizer que dividindo os 100 minutos pelos 16€ implica que cada minuto de chamada custe 0,16€. Este valor com mais 30,8% de acréscimo passa para os 20 e tal cêntimos, em vez dos 16 cêntimos. Quer ainda dizer que do total de 100 minutos mensais fico com apenas 70 minutos efectivos (deduzindo os 30% de custo adicional). Curioso…
Sensação de engano fácil. Senti que de certeza que existem maneiras de me enganar muito mais elaboradas e de tal forma escondidas que eu jamais as descobriria. Esta artimanha é tão escandalosa que, pior do que ter de pagar mais do que o previsto, faz-me pensar que nos cuspiram na cara quando oferecíamos um lenço. Esta sensação durou até recebermos a primeira factura. Assim, por mês e por telefone, em vez dos 16€ foram-nos cobrados 27€, dando um total de 54€. Como já tinham passado 2 meses esta conta dobrou: 108€. E ainda cobraram 54€ por uma taxa que ainda hoje é um mistério. Isto totaliza 162€.
Telefonamos e reclamamos. Pediram uma cópia da factura por fax. Lá foi. Prometeram uma resposta. Até hoje. Apenas disseram que não existe um tarifário de 100 minutos por 16€ e que os números ainda não mudaram porque têm no registo que nunca foi pedida tal portabilidade. Brincamos?
Qualquer coisa me está a escapar nesta trama de telecomunicações mas penso que já ficaram com uma ideia do que estamos sujeitos.
Entretanto elaboramos uma carta a pedir esclarecimentos e resolução rápida de tanto transtorno com a possibilidade deste caso seguir para outras instituições.
Estamos à espera de uma resposta…

Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Sete rios

A nossa companhia são 3 espanholas de Sevilha. Entenda-se por companhia as únicas pessoas com quem estamos a comunicar. O indivíduo que ocupou, aos poucos, o banco onde eu estava sentado não se enquadra na palavra companhia, pois o único contacto que aconteceu entre nós resultou do asqueroso fio de baba que descansou no meu ombro. Isto não é companhia, e muito menos comunicação. Se bem que poderia ter interpretado a situação de modo diferente. Aquele sujeito não necessitava de um ombro amigo para desabafar, mas sim de um ombro qualquer para babar. Escolheu-me.
Por outro lado, a inglesa atrapalhada que pergunta direcções, os executivos que falam durante 30 minutos seguidos ao telemóvel, a mãe que abraça o regresso do filho, o rapaz que ficou sem carta de condução por excesso de velocidade, as amigas que regressam de férias e caminham a olhar para o chão ou o velhote que vive na estação, todos eles comunicam, se calhar mais do que julgam. Tenho a certeza que não reparam que os observo, assim como tenho quase a certeza que julgam passar despercebidos. Estou disposto a considerá-los companheiros mas só me apetece comunicar com eles através do olhar. Eles não são companhia mas intrigam-me e cativam-me mais do que as nossas 3 amigas sevilhanas.
Perdemos 2 autocarros de regresso a casa e vamos mergulhando no tédio da estação. No entanto, a conversa é fluida, ou não fossemos todos latinos, mas principalmente por partilharmos o mesmo cantinho de passeio, em frente a um banco de jardim outrora desocupado e confortável. Quando me perguntaram o que tinha na mão respondi que era um moleskine, elas riram e disseram que era uma palavra estranha para um caderno. Têm toda a razão. Pensei em convidá-las para deixarem a sua marca de tinta preta mas, mais uma vez atordoado pelos 6 belos olhinhos, abri a boca apenas para perguntar se queriam mais uma Super Bock.
Lindíssimas, a Carla e Patrícias, com menos de 20 anos.
Como espanholas de gema não conseguem fechar a matraca por mais de 12 segundos, tempo suficiente para se lembrarem de outra música ou para simplesmente articularem palavras, formando frases, apenas com a preocupação de estarem gramaticalmente correctas, e por vezes nem isso. Têm todas olhos viciantes, ou melhor, olhares demolidores. É fácil de perceber tal vício se tentarem imaginar a mulher que vos prende a atenção toda no seu olhar, com íman. Isso dava-me uma sensação de prazer sempre que captava o diálogo ou pelo menos a atenção.
Viajam com malabares e roupas coloridas, sabem mil e uma músicas de cor, não têm nem mais um tostão nos bolsos coçados e não conseguem evitar que a vida, que lhes corre a 100 à hora nas veias adolescentes, transborde em radiações de despreocupação e bem-estar abrangendo toda a gente que decida olhar a segunda vez para elas.
Faltam 2 horas, para elas 12.
Decidi não lhes dar a caneta para as mãos porque é, sem dúvida, mais poderosa do que a mais experiente das espadas.

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

Ombro para chorar

A partir do ditado popular "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje" conclui-se, por repetição de ocorrências, que o Homem faz exactamente o contrário. Agimos melhor sob pressão.
O ser humano é, por natureza, um animal egoísta coberto por uma camada de comodismo que o leva a pensar que "amanhã o Sol também nasce". Verdade. Em princípio, amanhã seremos banhados novamente pela estrela-mor e facilmente seremos surpreendidos quando repararmos que passou mais um banho.
Um excelente exemplo, do que vos tento comunicar, acontece no "escritório" de nossas casas, ou seja, a casa-de-banho. Entramos confiantes e certos de que nada nos pode estragar o prazer da real cagadela, até que, quando esticamos o braço na direcção do "folha-dupla" ouvimos apenas o som do rolo de cartão a rolar no ferrinho. Quando damos conta estamos borrados até aos dentes e com um quadradinho de papel, de folha-dupla e extra-suave, na mão.
E a verdade é que amanhã pensamos e passamos pelo mesmo. Até chegar o amanhã do Juízo Final. Até chegar o amanhã que nunca mais chegava. O amanhã inevitável e incontornável. É aí! É agora que agimos! Agora somos dinâmicos, somos enérgicos e mais sentimentais que nunca. Somos finalmente vivos!. Sentimos tudo, da ponta dos dedos às borboletas no estômago, estamos susceptíveis ao mínimo grão de borra no café fresco.
E agora? É amanhã.
Não dou conselhos, amigo. Em vez disso salto para dentro de ti.
Ter o "não" por única certeza dá-te o brilho extra na espada, a vantagem que faz toda a diferença e o gelo suficiente no Whisky.
Não vais perder porque já perdeste, mas podes viver.
Grande abraço.

Sexta-feira, Setembro 30, 2005

Macho latino

Neste primeiro post na categoria "Dizem os que sabem", destinada a relembrar e, principalmente, a imortalizar certos comentários acertados e açucarados, certos desabafos penosos e ácidos ou certos pensamentos inibidos e deliciosos, postos em praça pública quer por Luís Vaz de Camões quer pela ilústre vendedeira de famosas sandes de presunto mais conhecida por "a badalhoca", decidi abrir as hostes com uma frase de um dos últimos machos latinos portugueses.
A imagem de cima refere-se, com ironia e algum exagero, à figura que todos desenhamos no ar quando nos falam em macho latino. Pois bem, este macho latino de que vos falo, actualmente desfigurado da silhueta típica de "pêlo no peito", deixa muito a desejar no que respeita às atitudes confiantes e decididas que completam o pacote de macho latino.
Como expoente máximo de machesa temos o azeiteiro-mor, o oleoso-mestre e o com-falinhas-mansas-vou-te-comer, Zézé Camarinha, que se tivesse conhecimento que existia tal figura, como esta que vos estou a descrever, era bem capaz de bradar aos céus e, ainda com as mãos a escorrer de creme bronzeador, comentar qualquer coisa como: "Bitch que pariu que that guy só se caga pela metade!!"
O que é certo é que o meu amigo ganhou lugar no "Dizem os que sabem", e para que vocês compreendam finalmente e em toda a plenitude do seu complexo ser, deixo-vos até uma próxima e breve escrita com o tão esperado "pensamento em voz alta" do meu amigo macho latino.
Assim, dizem os que sabem:

Hoje à noite vou comer uma gaja... nem que ela seja boa!
Paulo Rony, 2005

Sexta-feira, Setembro 23, 2005

La plage fatale


Um ano depois reparei que a praia de Caminha é a mais sensual do mundo!
Os testemunhos sucedem-se em catadupa fazendo-me acreditar que, para os mais atentos, as barracas de praia rangem como camas violadas repetidamente e o ouvido mais audaz, quando toca na areia, detecta gemidos semelhantes ao da mulher quando sinaliza ao parceiro que está pronta a dar a volta ao mundo em 30 segundos.
O Ricardo dorme como um menino, ou melhor, como um leãozinho. Deixou-me sozinho na apreciação, numa primeira instância geral e mais tarde pormenorizada, após um esforço de concentração e principalmente de controlo do moinho de vento na minha cabeça, de um cenário de amor. Amor em todos os sentidos, amores sentidos. Amor de todas as formas, amor que na tua cabeça deformas. Que amor? O que é amor? Para tudo o que neste local me rodeia, amor é tudo. É o homem que escreve palavras com grãos de areia, é o homem que transforma dois dedos em perninhas e percorre a barriga dela, é o homem que separa os M&M's por cores, por isso digo que é tudo...e o Ricardo dorme.
Olha à volta Ricardo! As núvens encostam-se em danças sensuais, os pinheiros que limitam a praia são cúmplices de figuras de coito.
Reparo no todo da praia, no bolo intacto. Fechas os olhos e tudo muda, não é uma praia que vês. Os fantasmas de luz são fantoches deformados. A imagem deturpa a memória que tinhas da praia e agora sei qual o quadro geral: uma vagina.
O vasto Camarido representando o encaracolado conductor à satisfação, a areia branca e perfeita lembrando a pele fina e sensível com sabor ácido, o Forte da Ínsula tal e qual um clítoris rodeado de humidade.
Os casais apercebem-se e tomam posições e atitudes incontroláveis, não se resistem, não querem resistir nem desistem. Quem desiste sou eu. Lanço um olhar entre a sobrancelha direita e a lente dos óculos-de-sol. O apresentador dá por encerrado mais um espectáculo de luz e cor, com elefantes e anões.
Um pequeno aceno mais tarde e estou, de novo, a olhar para o leãozinho. Acorda, não sabes o que perdes.

Quarta-feira, Agosto 03, 2005

Bolo "Aki Hagato"

4 Ovos
2 Chávenas de chá de farinha
2 Chávenas de chá de açucar
1 Chávena de chá de óleo
125gr de chocolate em pó
1 Chávena de chá com água a ferver
Bolo:
Bater os ovos juntamente com o chocolate em pó, o açucar, a farinha, óleo, e só no final deitar água a ferver.
Untar forma com farinha e manteiga. Levar ao forno a 150º.
Cobertura:
8 colheres de sopa de leite
5 colheres de sopa de açucar
4 colheres de sopa de chocolate em pó
2 colheres de sopa de manteiga
Levar tudo junto ao lume numa panelinha (10').
Cobrir o bolo.
Bom apetite!

Quarta-feira, Junho 01, 2005

Manta de retalhos VI

Retalhista anterior: Manannan
"Passo para o outro lado da avenida e estico o braço...um Mercedes novinho em folha...
-Bom dia!
-Bom dia! Por favor era para..."

Engasgo-me com todos os ossos de um frango, tusso os pulmões até que as lágrimas me encham os olhos. A minha ex-sogra...no banco de trás. Desde cedo lhe chamo "jacaré", não pelas semelhanças de mandíbulas mas pela maquilhagem verde, que lhe ensopa a cara, e teima em chamar-lhe estilo "new vert". Pra mim, é o estilo "new verdete" à semelhança da Maria José Valério.
-Bom dia, D. verde...Verdemina.
-Bom dia, quer boleia?
Acomodei-me a custo ao lado daquele lagarto de 98Kg. Tinha uma caixa de pastéis ao colo, da Pastelaria Gomes, e devorava com sofreguidão os últimos pedaços de um dos regalos. Não conseguia olhar para os dedos gordurosos e os lábios misturados de buço, migalhas, baton e a mistela branca acumulada nos cantos da boca.
"COME!" insiste ela sem ter pedido a primeira vez.
O solavanco, do Táxi ao arrancar, fez com que a minha mão entrasse na caixa e, à sorte, tirasse um bolo. Comi e senti-me na obrigação de elogiar o dito cujo, afinal de contas, o jacaré, apesar de animal selvagem e bruto, sempre me tratou com dignidade, mesmo quando esborrachei o focinho da filha contra o do amante.
"D. Verdemina, muito bom o bolinho de bacalhau!"
"Bolinho de bacalhau? Comeste uma nata!" É para vocês, leitores, repararem no cheiro que eu ainda tinha nos dedos...
A D. Verdemina rebolou para fora do Táxi, levantando uma núvem de migalhas que se soltava do conjunto de "toalha de mesa" que abraçava com firmeza o seu corpo. Fiquei a sós com o "Papai Tucano", o condutor da viatura creme. Pensei, durante alguns minutos, em como seriam as noites dos meus ex-sogros. Fiquei de tal maneira enojado que senti o sabor do pastel de nata de novo na garganta.
-Ande lá com esta merda! disse eu a acender um cigarro.
-Para onde afinal caralho? retribuiu o taxista, mostrando uma cara de quem quer levar com umas batatas.
-Mas você está a falar para quem, ó tucano de merda? Confesso que fui um pouco rude quando fiz saltar a peruca do condutor com um cachaço em cheio.
Saimos num repente e encontramo-nos frente-a-frente. Um dedo espetado no meu nariz tentava distrair-me da barra de ferro na mão direita. A última coisa em que pensei foi: "a puta da reunião vai ter de esperar."

Próximo retalhista: Einstein

Domingo, Abril 24, 2005

Crónicas de Santiago. vol 1

"Posso sentar-me na tua mesa?" pergutou ela de verde e olhos meigos. "Não aprecio jogos, a única regra desta mesa é a sinceridade" retribuiu Pepe Santiago ao fechar o "Cem anos de solidão" do Gabriel García Márquez.
Calaram-se e ela tentou descobrir a origem de tal rigidez nas suas palavras tal qual uma cobertura secular de corais e verdete que envolve o casco de um naufrágio. A resposta dele não foi premeditada e lançou-a sem intenção de namoriscar ou provocar mistério, no entanto os (des)encontros anteriores na curta vida de Pepe Santiago mostraram-lhe caminhos e esconderijos para evitar desilusões que constantemente o derrubavam no seu quotidiano. "As vadias", como ele chama às mulheres, estão num patamar entre o desconhecido e o apetecível há já alguns anos e não seria esta vadia a convencê-lo do contrário.
Estava na hora de se encontrar com Mirko na ponte Vecchio e a intrusa teria de ser eliminada. Esta chuva de pensamentos de ambos durou 5 segundos e quando Pepe Santiago deu conta já ela estava sentada, com a mão na sua face ensonada com barba de 4 dias, a sussurar-lhe ao ouvido com a confiança e abuso da chuva num dia de inverno: "Deixa-me entrar aí..."

Terça-feira, Março 15, 2005

Maxilar de alce

1 Maxilar superior de Alce
1 Cebola
1 Dente de alho
1 Pacote de misturas de especiarias
Sal
Pimenta
Vinagre a gosto
Cortar o maxilar mesmo abaixo dos olhos e colocá-lo em água a escaldar (45'). Arrancar os pêlos e depois lavar a peça. Num caldeirão cobri-la com água e juntar cebola, alho, especiarias e vinagre. Pôr ao lume e, quando ferver, baixar a chama e esperar até ficar tenra. Deixar de molho e, na manhã seguinte, retirar ossos e cartilagem.
2 tipos de carne: branca da zona nasal e partes escuras junto aos ossos. Cortar em fatias e colocá-las numa forma de pão, alternando os tons de carne.
Deixar ficar em geleia, cortar às fatias.
Servir e comer.

Sexta-feira, Março 11, 2005

Mais conhecidos que o termómetro. vol 3

Tentámos comentar e antever os concertos dessa noite,elogiámos o chefe pela refeição, pedimos cerveja, Licor Beirão e meias doses de Croft, tentámos de tudo. Estavamos num carrocel de pensamentos e, nesse divertimento, o melhor cavalo era a mesa onde elas estavam. Decidimos não contrariar o inevitável e o próximo passo era falar com elas. As conversas ocas de há cinco minutos atrás foram substituídas por uma chuva de ideias, de propostas, de estratégias, para ultrapassar a timidez por elas imposta.
Comprámos os bilhetes para os concertos ao lado do recinto mágico e fomos marcados com uma pulseira que, para nós, era o símbolo da liberdade, era o prémio antes da competição, a medalha de ouro, um totém nos nossos pulsos que significava três dias de coboiada. Elas não tinham pulseiras. A comodidade natural de quem está de férias fez-se sentir ao concordarmos com a ideia de que, provavelmente, as encontraríamos no recinto dos espectáculos. Mas elas não tinham pulseiras. Pensámos em apostas entre os três, mas o perdedor nunca se deu por vencido. Pensámos em pagar-lhes o jantar, mas os cartões não deixaram. Pensámos numa farsa hilariante, mas as gargalhadas interromperam o raciocínio que, à partida, parecia lógico. Sem darmos conta o tempo passou e com ele a nossa hipótese de atracarmos na Ilha dos Amores de Luis de Camões. Saímos da mesa cabisbaixos e,num acto de repulsa e orgulho, o Brochado sussurou-me "eu vou lá."
O caminho para a porta de saída era um corredor com três mesas de duas pessoas, juntas à parede do lado esquerdo. Elas estavam na última mesa em relação ao nosso percurso. Hoje, tenho a certeza que era mais fácil o dono do restaurante nos oferecer uma pata de porco "Pata Negra" do que o Brochado desencantar força interior para articular um discurso que não envolvesse elogios relativos a beleza, atracção ou cerveja.
Saímos.

Quarta-feira, Março 02, 2005

Mais conhecidos que o termómetro. vol 2

Os jantares em Vilar de Mouros tornaram-se míticos. Mesa para três, prato de carne, na maioria das vezes aconselhado pelo chefe ou empregado, copo de cerveja fresca. O caloroso pimento recheado e Quinta de Cabriz do Abdi foram substituídos por um não menos envolvente convívio gastronómico à base de Super Bock e carne estufada.
Quando caíamos na cadeira de madeira, aconchegando as pernas debaixo da mesa, davamos início a conversas invejáveis, a gargalhadas infindáveis, enfim, abríamos as portas da alma desmesuradamente à espera que algum de nós lhe tocasse.
As noites começavam assim, assim como começava também a incerteza do próximo passo a tomar e a curiosidade em perspectivar a próxima situação cómica, que normalmente não tardava e teimava em repetir-se durante a noite. Mais tarde falarei disso.
Neste jantar em concreto, aconteceu algo que nos engasgou, que nos arregalou os olhos, que interrompeu os nossos raciocínios primários...elas.
Entraram confiantes, como poderiam não estar? Eram estupendas e o que nos intimidava era a certeza de que elas sabiam disso. O Brochado sorriu. Eu emiti um som de espanto, tão absurdo que se assemelhou ao saltar da carica de Coca-Cola previamente abanada. O Cenoura estava de costas para as duas e não se pronunciou. O orgulho dele durou um minuto, muito embora eu e o Brochado, em sucessivos elogios, o tivessemos ajudado a ultrapassar a barreira do orgulho em tão pouco tempo.
"Odeio-as" pensei. "Interromperam o nosso jantar, misturaram-se na nossa conversa, condicionaram os nossos pensamentos." E nem sequer as conhecíamos. Até então estavamos livres e, ao falarmos de mulheres, fazíamo-lo tendo em conta a generalidade do mundo feminino. E agora não. De todas sobraram estas duas. E de todas as conversas só sobrou uma. Como as odiei...

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

Mais conhecidos que o termómetro. vol 1

Em Vilar de Mouros passa-se qualquer coisa. Estou na dúvida que seja entre uma população à parte de Portugal, que pensa em uníssono numa constante procura pelo ambiente perfeito, ou simplesmente, pelo completar dessa população por três viajantes que por lá passaram este verão.
Falar de Vilar de Mouros é bastante fácil, da sua zona histórica, da ponte romana, dos bandos de boa gente que preenchem as ruas como Smarties num bolo de chocolate, mas falar desses três viajantes é um erro. Não são três os viajantes mas sim um só, independentemente de se deslocarem em três corpos distintos.
Vilar de Mouros. Verão. Festival de música.
Em boa hora chegou a data, em boa hora os meus companheiros me mostraram o Taj Mahal do norte de Portugal ou a grande pirâmide de Gizé ao alcance de qualquer português que se sinta preparado para uma caminhada pelas suas crenças, valores e ideais. Sinto por eles uma necessidade absurda de companhia e partilha, só comparada aos grandes comflitos amorosos da História. Para evitar confusões de ideias, que envolvam Júlio César e Cleópatra, ou Helena de Tróia e o grego, ou ainda o D. Duarte e Isabelinha, explico a nossa cumplicidade com exemplos de pureza, assim, D. Quixote e Sancho Pança ou Che Guevara e Manuel exprimem, com proximidade, a nossa amizade. Vilar de Mouros transformou-nos e decidi contá-lo.

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005

30 Anos mais tarde

O sol incomoda sem óculos-de-sol. Uso uma cerveja para refrescá-los por dentro. Das quinze pessoas à minha volta só um casal de idosos me cativa. Conversam com tranquilidade, de acordo com o que aprenderam até agora. Ao observá-los aprendo com eles mas o que me intriga mais não está à vista. Como se conheceram? Em que situação? Em que regime?
Escolho este café pelas pessoas que o frequentam e, principalmente, pelas memórias dos passeios com o meu avô que findavam sempre no Homem-do-leme a tomar café, uma fatia de resende e a certeza de que iríamos realizar este ritual para sempre. Ainda sinto os dedos pegajosos da suculenta fatia e sempre que me sento neste café tenho o instinto de elevar os pés como se ainda tivesse a bola de futebol debaixo deles.
Acendo um cigarro para não divagar mais e retorno ao casal de idosos. Estamos em 2005 e há 30 anos tudo era substancialmente diferente. Não há televisão, não há telemóveis, não há computadores e muito menos internet, não há vontade própria e muito menos liberdade de expressão.
No entanto, as pessoas existem e com elas surgem as necessidades de aproximação. Com elas surgem relações escondidas e proibídas. Com elas surgem ligações tão fortes que são capazes de ultrapassar tudo isso e sem recorrer às discotecas, aos passeios públicos ou às mensagens de telemóvel.
Estamos em 2005 e os relacionamentos fúteis aumentam na proporção directa à taxa de natalidade mundial. Aumenta a desconfiança e a insegurança. A mentalidade sexual modifica-se de ano para ano. Existem estudos que demonstram o início sexual cada vez mais precoce. Existe uma escolha de estilos incalculável, apenas limitada pela imaginação de cada um. Existe um sistema de comunicação global, em que cada pessoa está à distância de um computador ou de um telefone portátil.
Isto em apenas 30 anos. Em 30 anos conseguimos aproximarmo-nos do estilo de vida do português do Brasil. Estamos com muita proximidade de mentalidade, de liberdade e, na minha opinião preocupada, de distanciamento inter-pessoal, apesar de toda a tecnologia de comunicação que temos ao nosso dispôr, da sociedade brasileira.
Criou-se um antagonismo não-calculado que trará consequências a curto prazo, quando nos lembrarmos com saudade dos nossos avós, dos nossos pais e das suas relações duradouras, algo que parece, hoje-em-dia, quase impossível de alcançar. E isto em apenas 30 anos.
Portugal mudou. Portugal está a mudar. Qual é o próximo passo? Alguém responsável pensa nisto, ou que consequências trará para o nosso país?
Estamos à deriva, sem objectivos e sem ideia prevista do futuro. Enfim, há coisas que nunca mudam...
Apago o cigarro e faço sinal ao empregado para juntar a despesa do pequeno-almoço, do meu casal favorito do café, à minha conta.

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

Polvo "sem medo"

1 Polvo
Bróculos
1 dente de alho
Azeite
Hortelã
Salsa
Cozer o polvo em água a ferver (durante 1'30''-2'00'') mas primeiro mergulha-se o polvo na água 2 ou 3 vezes, antes de o colocar definitivamente na panela.
Cozer os bróculos até ficarem ficarem tenros.
Fritar o polvo, previamente cozido e cortado aos pedaços pequenos, juntamente com o azeite, com o alho aos bocadinhos, a hortelã e a salsa.
Tá feito.